Belo Horizonte, MG

Vista da obra [view of the artwork] <i>Tantas veces apümngeiñ</i> [So many times apümngeiñ] (2016), de [by] Sebastián Calfuqueo, na [at the] 34ª Bienal de São Paulo. © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Vista da obra [view of the artwork] Tantas veces apümngeiñ [So many times apümngeiñ] (2016), de [by] Sebastián Calfuqueo, na [at the] 34ª Bienal de São Paulo. © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

A itinerância da Bienal de São Paulo em Belo Horizonte (MG) acontece de 5 de julho a 25 de setembro de 2022, no Palácio das Artes, por meio de parceria com a Fundação Clóvis Salgado e a APPA – Arte e Cultura. Este ano, a mostra na cidade gira em torno de três enunciados: O sino de Ouro Preto, Os retratos de Frederick Douglass e A ronda da morte de Hélio Oiticica.

O enunciado O sino de Ouro Preto remete ao sino de bronze da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos, localizada em Ouro Preto (Minas Gerais), cujo campanário carrega um sino de bronze, fundido na Alemanha em 1750. Conta-se que, em 21 de abril de 1792, esse sino foi o único da colônia a ecoar, em aberta desobediência à ordem oficial que proibia homenagens ao inimigo da coroa, um toque de lamento pela execução de Tiradentes, único participante da Inconfidência Mineira que não teve revogada sua sentença de morte. Com a independência do Brasil e a proclamação da República, o mártir mineiro foi declarado herói nacional, e o sino que o homenageou passou a ser considerado um símbolo da luta pela soberania do país, a tal ponto que em 1960, noutro 21 de abril, foi levado a Brasília, içado ao lado de uma réplica da cruz usada na primeira missa realizada no Brasil e tocado para a inauguração da nova capital.

Na 34ª Bienal, o enunciado remete a questionamentos como: o que quer dizer, hoje, voltar a olhar para esse sino tão fortemente marcado pela história do período colonial, sentir o tempo que continua se sedimentando sobre ele? Que ecos do Brasil e do mundo chegam, hoje, até a antiga Vila Rica e reverberam no bronze desse sino? 

Outro núcleo da mostra em Belo Horizonte é concebido a partir do enunciado Os Retratos de Frederick Douglass. Douglass  foi  um  homem  público,  jornalista, escritor, orador estadunidense, e um dos  principais  expoentes da  luta  pela  abolição  da  escravidão.  Até  hoje  seus retratos circulam  pelo  mundo  como  símbolo de  justiça  e  liberdade. Assim, sob o olhar penetrante e desafiador de Douglass, este enunciado traz artistas e obras voltados aos processos de colonização, deslocamento, violência e resistência que marcaram e continuam marcando a vida de milhões de pessoas ao redor do planeta.

O terceiro enunciado presente na mostra em Belo Horizonte é A ronda da morte de Hélio Oiticica, que parte de uma obra não realizada, planejada pelo próprio Oiticica no período da Ditadura Militar. Artista formado no ambiente experimental do Rio de Janeiro da década de 1950, sempre buscou romper os limites das linguagens tradicionais para se aprofundar na experiência da arte como parte integrante da vida coletiva. Em uma entrevista feita após seu retorno, o artista falou sobre a tristeza de perceber que já não poderia encontrar muitos dos amigos que havia feito em meados da década de 1960 no samba e nas favelas do Rio, atribuindo essas ausências ao aniquilamento sistemático de uma parcela da população por parte do Estado. A ronda da morte, assim como a impossibilidade de realizá-la, segue sintetizando a perversidade da simulação de normalidade em situações de crise e apontando para o modo como fluxos e dinâmicas históricas não se encerram dentro das periodizações que se encontram nos livros. O passado vive no presente, constituindo desafios e inspirando lutas que serão fundamentais para a construção do futuro.

Serviço:
34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto
Programa de mostras itinerantes

Palácio das Artes
Belo Horizonte (MG)
5 julho – 25 setembro 2022
Av. Afonso Pena, 1537 - Centro, Belo Horizonte (MG)
Segunda – sábado, 9h –21h
Domingos 14h – 20h
Entrada gratuita




  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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