Ana Adamović

Ana Adamović, <i>The Choir</i> [O coro], 1962/2020. Fotografia  de <i>O coro</i>, do álbum de fotos enviado ao Presidente Tito pelos Pioneiros e Jovens da I Instituição Educacional para Crianças Surdas, Zagreb-Ilica, 1962. Coleção Museu da Iugoslávia, Belgrado
Ana Adamović, The Choir [O coro], 1962/2020. Fotografia de O coro, do álbum de fotos enviado ao Presidente Tito pelos Pioneiros e Jovens da I Instituição Educacional para Crianças Surdas, Zagreb-Ilica, 1962. Coleção Museu da Iugoslávia, Belgrado
Ana Adamović,  <i>Two Choirs</i>, 2013-14. Still de vídeo. Cortesia da artista
Ana Adamović, Two Choirs, 2013-14. Still de vídeo. Cortesia da artista
Vista da obra <i>Dois coros</i> (2013-2014), de Ana Adamović na exposição <i>Vento</i>. Foto: Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Vista da obra Dois coros (2013-2014), de Ana Adamović na exposição Vento. Foto: Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

Na cidade de Belgrado há um museu em que são expostos muitos dos presentes recebidos pelo marechal [Josip Bros] Tito quando chefe de Estado [1945–1980] da então chamada Iugoslávia. Há faqueiros de prata, entalhes em marfim, objetos artesanais típicos de países distantes; há até fragmentos de solo lunar, ofertados pelo governo dos Estados Unidos em 1969. Há também centenas de álbuns de fotos que cada escola dedicava ao mandatário em seu aniversário, ano após ano.

Ana Adamović (1974, Belgrado, Sérvia) poderia estar em alguns desses álbuns. Ela pertence a uma geração de artistas sérvios que nasceu sob o governo de Tito e viveu, na infância ou adolescência, a dissolução da República Socialista Federativa da Iugoslávia. Muitas das obras desses artistas tematizam os últimos anos da república que deixou de existir: seus valores, seus hábitos, seu imaginário. É o caso de Two Choirs [Dois coros] e My Country is the Most Beautiful of all [Meu país é o mais belo de todos], as duas videoinstalações que Adamović mostra na 34ª Bienal.

Two Choirs parte de uma fotografia encontrada nas vastas pesquisas que Adamović realizou nos álbuns que as crianças entregaram ao presidente. O conteúdo dos álbuns se repete: há sempre cenas registradas em salas de aula, em dias festivos, em atividades esportivas e há, em quase todas as coleções, ao menos uma foto de um coro em que se veem os alunos entoando canções que a imagem em preto e branco não nos deixa escutar. Há ainda o caso do álbum produzido em 1962 pelo Instituto para a Educação de Crianças Surdas de Zagreb, que inclui o registro de um coro em que as crianças vocalizam canções que elas mesmas não podem ouvir. A pergunta que a artista se faz é: seria aquele um sistema tão inclusivo que permitia até aos cidadãos surdos a formação de um coro ou, ao contrário, seria aquele um sistema tão autoritário que obrigava a cantar até aqueles que não podiam ouvir suas vozes?

É dessa imagem que se origina Two Choirs. Mas, ao contrário do registrado na foto, o vídeo de Adamović mostra crianças de um coro inclusivo, com vários tipos de deficiências, interpretando uma canção patriótica dos anos 1960 em língua de sinais. O que vemos é um grupo silencioso que move os braços e mãos simultaneamente, como numa coreografia. Se num coro cada voz contribui com seu timbre para criar uma massa única de som, nesse vídeo podemos ver como o mesmo gesto ganha características únicas ao habitar cada corpo.

My Country is the Most Beautiful of all também parte de uma imagem de um coral infantil, o Kolibri, fundado em 1963. O registro é de um concerto em Belgrado, em 1987, em que ex-membros do coro se uniram às crianças para cantar a música do título, que exalta a paisagem da primavera e do inverno e fala de glória e de heróis. Fazendo referência a esse momento que uniu no palco diferentes gerações do Kolibri, 24 anos mais tarde, Adamović reúne algumas das crianças de 1987 para cantar a mesma música na mesma cidade. Mas num país diferente, onde uma guerra recente deixara 130.000 mortos. A paisagem talvez fosse a mesma, mas falar de glória e heróis evocava outras memórias. Nas duas obras de Adamović aqui presentes há algo da história que se repete, mas que nesse retorno revela também diferenças.

  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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