Correspondência #8

Montagem da 6ª Bienal de São Paulo (1961) © Athayde de Barros / Fundação Bienal de São Paulo

Durante o processo de construção da 34ª Bienal, por meio de cartas como esta, o corpo curatorial torna públicas reflexões sobre o desenvolvimento da mostra. Esta oitava carta foi escrita por Jacopo Crivelli Visconti (curador geral), Paulo Miyada (curador adjunto) e pelos curadores convidados, Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez.



Começamos a escrever nossa primeira carta coletiva há mais de três meses, pois achamos que era o momento de dizermos algo juntos. A carta começava com a frase: “Incerteza é uma palavra insuficiente para descrever o estado do mundo durante a pandemia de COVID-19”. Não sabíamos aonde a pandemia nos levaria, e ainda não sabemos. Em poucas semanas, entretanto, a incerteza se tornou preferível à certeza da tragédia que está sendo moldada pela crise sanitária e política no Brasil. Acreditamos no papel que a arte pode e deve desempenhar na sociedade, especialmente em momentos como este, quando as experiências que enfrentamos não têm nome e demandam outras linguagens para serem processadas. Mas também estamos cientes de que, no momento, todos os esforços têm que ser voltados para o controle da epidemia e de suas consequências mais extremas.

Costumamos pensar uma exposição como os meses em que um espaço se abre para o encontro entre pessoas e obras de arte, mas, de fato, os encontros começam muito antes. Alguns artistas precisam viajar com antecedência, visitar o lugar, andar pelas ruas e conhecer pessoas; produtores e outros profissionais precisam procurar materiais, comparar serviços, contratar fornecedores; os carpinteiros precisam construir as paredes e pintá-las; os couriers precisam viajar com as obras de arte que só deixam as suas coleções acompanhadas; jornalistas e críticos precisam ver com seus próprios olhos e fazer perguntas. Há, ainda, aqueles que abrem as caixas, que manuseiam as obras com luvas brancas, que as instalam, com cuidado, no seu devido lugar; aqueles que regulam as luzes, instalam e afinam os equipamentos; aqueles que traduzem; os que limpam o espaço; os que pagam as faturas e as diárias de trabalho. Para abrir a 34ª Bienal de São Paulo em outubro, toda essa coreografia teria que ser posta em movimento agora. E isso não pode ser feito, é uma questão de responsabilidade pública.

Juntando-se ao esforço global de segurança e cuidado em relação às recomendações de saúde, os funcionários e colaboradores da 34ª Bienal (arquitetos, arquivistas, artistas, curadores, dançarinos, designers, educadores, escritores, fotógrafos, poetas, produtores, e muitos outros profissionais) estão trabalhando remotamente. Continuamos desenvolvendo os detalhes de um evento que acreditamos ser de extrema importância, principalmente neste momento, na medida em que reafirma a arte como esfera pública, com sua capacidade inigualável de dar forma a conteúdos que são fundamentais para nossas sociedades. Assim foi no dia em que a 34ª Bienal de São Paulo começou, em fevereiro de 2020, com a performance de Neo Muyanga, A Maze in Grace, e a abertura da exposição de Ximena Garrido-Lecca. Foi um dia bonito, um encontro que as pessoas pareciam estar esperando. O pavilhão se encheu de força, desejo, fúria e esperança. No hiato em que vivemos, não podemos correr o risco de esquecer que, quando as pessoas se juntam, as coisas acontecem.

A exposição final da 34ª Bienal ocorrerá em setembro de 2021, um ano depois do que havia sido planejado inicialmente. De agora em diante, lentamente, em ritmos e tons diferentes, continuaremos pensando e construindo a mostra. Coisas acontecerão no Pavilhão Ciccillo Matarazzo e fora dele, através de publicações, diálogos e pesquisas. As exposições individuais de alguns dos artistas participantes da mostra serão abertas em instituições parceiras da cidade. Originalmente pensadas para acontecer simultaneamente, criando um coro, agora tecerão uma sinfonia feita também de silêncios, que só se completará na memória de cada um de nós. A Maze in Grace tornou-se a primeira linha desta sinfonia, deste poema coletivo que levará quase dois anos para ser concluído. A ideia de ensaio, central na concepção da 34ª Bienal desde o início, permite que a construção da mostra seja um momento aberto e público, onde as coisas são apresentadas sem o intuito de serem definitivas ou cristalizadas. A necessidade de repensar o projeto como consequência da situação atual é, portanto, coerente com uma atitude que já nos guiava – uma atitude incorporada na pergunta que nos fizemos de forma constante e recorrente, durante esses meses de trabalho: quais são os cantos e as canções, quais são as formas de arte e as formas de estar no mundo que se tornam possíveis e necessárias em tempos sombrios?

Essa questão é central na concepção da 34ª Bienal desde o seu título, Faz escuro mas eu canto. O verso de Thiago de Mello tem nos acompanhado através do aparentemente interminável estado de emergência que vivemos nos últimos anos. Ressoou com novos sentidos sob a luz fatal dos incêndios na Amazônia, pano de fundo trágico e premonitório para as manifestações que se espalharam pelo mundo contra a persistência de formas estruturais de racismo e preconceito, da desigualdade, de modelos de desenvolvimento não sustentáveis ​​e da destruição programática do planeta como o conhecemos. O verso parece ainda mais apropriado agora, diante do novo coronavírus que torna essa realidade mais evidente e extrema. Agora, mais do que nunca, não podemos nos esquivar de olhar atentamente para dentro da escuridão de nossos tempos. Mesmo atravessá-los com os olhos bem abertos talvez não seja suficiente. Queremos transformar essa travessia em uma canção – uma canção que pode ser solitária ou coletiva, sussurrada ou gritada. E não nos deixemos enganar, é preciso coragem e força para cantar agora, junto e apesar de um mundo que parece dar tão pouco valor à vida de tantos, que segue desconsiderando obscenamente o bem comum em prol da manutenção de privilégios individuais.

Ainda estamos ensaiando nossas canções. Novos ajustes serão necessários, novas ideias surgirão, serão desenvolvidas e modificadas e talvez se transformem em algo que não poderia ter sido concebido antes disso tudo. Este pode – deve – ser um momento de aprendizado. Diante da crise econômica que inevitavelmente derivará da pandemia e que certamente impactará o sistema de financiamento da arte e da cultura, podemos repensar e transformar práticas e modelos de trabalho que dependem de grandes despesas de recursos naturais e humanos. Qualquer que seja o tamanho dos desafios que tenhamos pela frente, estamos comprometidos em assegurar um espaço para o exercício da liberdade, para o desvelamento de novos significados do que se presumia entendido, e para a resistência a qualquer imperativo que afirme ser proibido ou impossível cantar.

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