Paulo Nazareth

Paulo Nazareth, <i>[A] A FLOR DA PELE</i>, 2019/2020. Registro de performance na Galeria Mendes Wood DM, Bruxelas, 2019. Cortesia do artista e Galeria Mendes Wood DM
Paulo Nazareth, [A] A FLOR DA PELE, 2019/2020. Registro de performance na Galeria Mendes Wood DM, Bruxelas, 2019. Cortesia do artista e Galeria Mendes Wood DM

Apresentada como ato, arte imaterial ou arte comportamental, a obra de Paulo Nazareth (muitas datas, Watu Nak, Vale do Rio Doce, MG) tem o deslocamento, a comunicação e a circulação como principais recursos de desenvolvimento e de linguagem. Ancorado por compromissos éticos com povos indígenas e afro-brasileiros – parte de sua ascendência –, Nazareth traça rotas de contato com o mundo, tendo como ponto de partida sua criação no alto do Morro do Palmital, em Santa Luzia, mirante natural na zona Norte de Belo Horizonte, onde teria vivido o Povo de Luzia, ou Povo de Lagoa Santa. Nessas rotas, encena sua própria identidade mestiça, desafia normatividades e preconceitos e procura conexões conceituais, históricas, afetivas e rituais com agentes de luta e resistência do passado e do presente.

A vocação como caminhante desencadeou seu ato processual Cadernos de África (2012-em curso) – no qual percorre o Brasil e o continente africano de sul a norte – e o projeto The Red Inside [O vermelho interior] (2018), em que cruzou, em uma caminhonete vermelha carregada com melancias de concreto, a Costa Leste dos Estados Unidos, de Nova Orleans às Cataratas do Niágara, indo então para Toronto, no Canadá. O trajeto, idealizado como reflexão sobre migrações forçadas e eletivas, repisou os vestígios da Underground Railroad, rota de fuga dos afro-americanos escravizados no século 19 rumo aos estados em que havia sido decretada a abolição.

Nazareth lida de forma consciente com a circulação de suas obras. Um dos eixos de sua produção é a plataforma editorial P. NAZARETH ED. / LTDA., que imprime panfletos a baixo custo e em grandes quantidades, distribuídos gratuitamente ou por valores voluntários. Seus conteúdos incluem projetos realizados e não realizados, relatos, conceitos e memórias, gerando debates críticos sobre ideologias dominantes e seus dispositivos de violência e racismo estrutural.

Nos espaços expositivos, Nazareth combina práticas documentais, montagens instalativas e escultóricas usando materiais encontrados em suas viagens e atuações performáticas que envolvem elementos de ritualização e catarse. Em [A] LA FLEUR DE LA PEAU [(A) A FLOR DA PELE] (2019), performance realizada pela primeira vez em Bruxelas, um saco de farinha de trigo branca pende do teto e é esfaqueado ritmadamente por dois homens imigrantes. O pó branco cai sobre o solo até que os homens deixam a cena e uma mulher, também imigrante, com uma vassoura, ordena todo o pó em um círculo preciso – alusão à cultura ocidental branca e seu uso do racionalismo como ferramenta de submissão das demais culturas do mundo. Ao mesmo tempo, evoca outras ancestralidades (africanas e islâmicas) que têm sua própria história de desenvolvimento da matemática e da geometria apagadas por narrativas eurocêntricas.

  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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