Sueli Maxakali

Sueli Maxakali, <i>Mõgmõka xupep</i> [O Gavião saindo],  2005. Cortesia da artista
Sueli Maxakali, Mõgmõka xupep [O Gavião saindo], 2005. Cortesia da artista
Sueli Maxakali, <i>Ũn te kuxak kuk top hemãhã</i> [Ela tira gordura da capivara], 2005. Cortesia da artista
Sueli Maxakali, Ũn te kuxak kuk top hemãhã [Ela tira gordura da capivara], 2005. Cortesia da artista

Sueli Maxakali (1976, Santa Helena de Minas, Brasil) é uma liderança dos Tikmũ’ũn, mais conhecidos como Maxakali, povo indígena originário de uma região compreendida entre os atuais estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Forçados a se deslocar de suas terras ancestrais para resistir a diversas agressões que se acumulam há séculos e que chegaram a deixá-los em risco de extinção nos anos 1940, os Tikmũ’ũn mantêm vivas sua língua e cultura, estando hoje divididos em comunidades distribuídas pelo Vale do Mucuri, em Minas Gerais. A vida nas aldeias é organizada em grande medida ao redor e a partir de sua relação com uma miríade de povos-espíritos da Mata Atlântica, os Yãmĩyxop, e de seus respectivos conjuntos de cantos, que constituem quase um índice de todos os elementos que estão presentes na vida dos Tikmũ’ũn, como plantas, animais, lugares e objetos. Grande parte desses cantos é entoada coletivamente, como o modo mais fundamental de relação com os espíritos Yãmĩyxop, que são convidados a visitar as aldeias para cantar e dançar, comer, durante o ritual. Realizado muitas vezes com finalidade de cura e transformação do mundo, o ato de cantar se pratica, entre os Tikmũ’ũn, como elemento estruturante da vida, porque é através do canto que se perpetuam as memórias e se constituem as comunidades. Cada pessoa tikmũ’ũn é dona de uma parte do repertório dos cantos dos Yãmĩyxop, pela qual é responsável. Todos os cantos, juntos, compõem o universo tikmũ’ũn, que é constituído por tudo que esse povo vê, sente e com o que interage, mas também pela memória de plantas e animais que não existem mais, ou que ficaram em  lugares de seu território originário de onde os Tikmũ’ũn foram expulsos no decorrer da guerra colonial.

Além de liderança, educadora e fotógrafa, Sueli é também realizadora audiovisual. Junto com Isael Maxakali – seu companheiro, que também é artista, cineasta, liderança e professor –, ela tem produzido alguns dos filmes mais emblemáticos da produção da Arte Indígena Contemporânea (para usar a definição consagrada por Jaider Esbell), no sentido de registrar e difundir rituais e tradições ancestrais, ao mesmo tempo transcendendo, com sua poesia, o engajamento na luta pelos direitos dos povos originários. Na 34ª Bienal, a artista apresenta a instalação Kumxop koxuk yõg [Os espíritos das minhas filhas] um conjunto de objetos, máscaras e vestidos que remetem ao universo mítico das Yãmĩyhex, mulheres-espírito. Todo o trabalho para a exposição foi realizado em conjunto com as mulheres e meninas que, na comunidade, cuidam de cada um desses Yãmĩy. O processo coletivo de criação da obra é coerente com a organização da própria comunidade Tikmũ’ũn, e de certa forma tensiona e embaralha o significado, os limites e a relevância da produção artística num contexto tão específico, nos apresentando outros regimes de autoria e criatividade. A participação de Sueli Maxakali na Bienal acontece em continuidade à luta de seu povo pela terra a partir da estruturação de um novo aldeamento no município de Ladainha-MG, onde estão desenvolvendo o projeto da Aldeia-Escola-Floresta, com iniciativas de valorização dos conhecimentos tradicionais dos Tikmũ’ũn, formação de jovens artistas e cineastas, cultivo de roças e reflorestamento. 



Apoio: Instituto Inclusartiz

  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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