Victor Anicet

Victor Anicet, <i>Caravelle</i>, 2018. Foto: Jean-Baptiste Barret. Cortesia do artista
Victor Anicet, Caravelle, 2018. Foto: Jean-Baptiste Barret. Cortesia do artista
Victor Anicet, <i>Carcan</i>, 2018. Foto : Jean-Baptiste Barret. Cortesia do artista
Victor Anicet, Carcan, 2018. Foto : Jean-Baptiste Barret. Cortesia do artista

Moldada em cerâmica, a obra de Victor Anicet (1938, Marigot, Martinica) é um exercício contínuo de restituição de testemunhos da gente martinicana. Filho de pai pescador e de mãe empregada no engenho de uma habitation (desdobramento do regime produtivo colonial baseado em mão-de-obra escravizada), Anicet teve, ainda criança, seu primeiro contato com as cerâmicas do povo ameríndio Arawak ao auxiliar as escavações arqueológicas promovidas pelo padre Pinchon, no sítio de Adoration em Marigot, no norte da Martinica. Anos depois, estudando em Paris, ele conheceu o Musée de L´Homme e constatou o quanto seu povo e ele mesmo haviam se distanciado de sua história, que permanecia nas mãos e nas vozes dos colonizadores. Anicet retornou à Martinica em 1967 e desde esse período confrontou a escassez de espaços de exibição para a arte contemporânea. Sua exposição Soleil Noir [Sol negro], com pinturas em preto e branco sobre madeira, foi instalada ao ar livre, em 1970. Desde então, seu trabalho acontece dentro e fora do ateliê, seja pela reunião com outros artistas interessados em debater a estética do Caribe para fundar o grupo FWOMAJE (1984), seja pela dedicação em fomentar um espaço institucional para a arte martinicana, ou mesmo pela criação de obras públicas. 

Uma das obras públicas de Anicet mais carregada de significados é a cerâmica que demarca o túmulo de Édouard Glissant no cemitério de Diamant, na Martinica. Chamada La Presence de l´Est multiple [A presença do Leste múltiplo] (2011), foi nomeada pelo próprio Glissant, quando uma obra anterior com a mesma composição de linhas grossas ritmadas, que vão se curvando gradualmente, foi apresentada em uma exposição organizada por ele na década de 1970. Essa recorrência de composições e signos não se restringe à homenagem póstuma de Anicet a seu amigo e colaborador constante, mas antes resume o modo como sua produção desenvolveu-se ao longo das últimas cinco décadas. Nesse intervalo, Anicet tem se debruçado sobre reminiscências da vida dos africanos escravizados e seus descendentes, assim como dos ameríndios caribenhos e das famílias hindu que imigraram para a Martinica no século passado. Diversas dessas memórias carregam marcas de violência, como as “carcans”, instrumentos de ferro utilizados para prender homens e mulheres escravizados pelo pescoço, ou como os relatos dos nativos sobre sua visão das embarcações coloniais que despontavam pela primeira vez no horizonte. Diante dessa violência, Anicet não desvia o olhar, mas exerce um trabalho de releitura, síntese, combinação e reelaboração que termina por fazer dessas marcas o ponto de partida para a criação de um novo vocabulário visual, assumida e propositalmente crioulo.



Apoio: Institut français à Paris and Ministère de la Culture et de la Communication – DAC Martinique

  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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