Yuyachkani

Fotonovela <i>La Madre</i> feita pelo grupo cultural Yuyachkani em 1974. Cortesia de Yuyachkani
Fotonovela La Madre feita pelo grupo cultural Yuyachkani em 1974. Cortesia de Yuyachkani
Fotonovela <i>La Madre</i> feita pelo grupo cultural Yuyachkani em 1974. Cortesia de Yuyachkani
Fotonovela La Madre feita pelo grupo cultural Yuyachkani em 1974. Cortesia de Yuyachkani

O Grupo Cultural Yuyachkani é um dos mais significativos representantes do chamado teatro de grupo na América Latina, pioneiro no campo da criação coletiva, experimentação e performance política. “Yuyachkani” é uma palavra quíchua que significa “estou pensando” / “estou me lembrando”, metáfora que serviu para investigar e analisar o sincretismo das teatralidades que se encontram nas tradições peruanas e da cultura indígena no contexto político e social peruano desde o início do grupo, em 1971, incorporando também os aportes das mestras e dos mestres do teatro universal. Yuyachkani aborda suas criações desde um espaço que abrange diversas linguagens, tendo como elemento fundamental o corpo e a presença dos atores e atrizes criadores do coletivo. Em suas obras, inclui livremente a presença dos corpos no espaço, assim como o texto teatral, elementos do arquivo documental, fotografia, instalação, dança e jogo, organizando as dramaturgias de acordo com o que a criação demanda ao longo do processo. 

Os membros do grupo, com a direção de Miguel Rubio, se definem não apenas como atrizes e atores criadores, mas como cidadãos e ativistas. Partindo da teatralidade, buscam reativar a reativar a memória social e histórica através de temas tão diversos como a luta pela terra, as migrações, a marginalização, a violência política perpetrada contra as mulheres, a justiça, o dilema do retorno dos deslocados, os desaparecidos. Essa urgência temática não exclui a busca cênica de temas mais amplos, como a reflexão sobre a condição humana e a esperança de um futuro que integre todas as vidas do planeta – tanto a vida humana em toda a sua diversidade, como a vida animal e a da natureza, todas atacadas e espoliadas pelo sistema que impera. 

Tais circunstâncias intensificaram-se dramaticamente durante o período de violência interna praticada pelo governo peruano e pelo grupo terrorista Sendero Luminoso, que se alastrou por duas décadas Peru, resultando em um brutal genocídio entre a população indígena e outros setores do país. Esse longo período marcou intensamente o grupo e se expressou nas dramaturgias de muitas de suas obras. 

O início do grupo foi marcado pela militância política junto aos partidos de esquerda, colaborando em manifestações e protestos em relação à situação dos camponeses e dos trabalhadores. Aos poucos, foram se dissociando das ideologias políticas para se comprometer diretamente com a criação teatral como ferramenta social de mudança. Hoje, sua casa-teatro é um espaço dedicado à comunidade, onde, além de apresentarem seus trabalhos, procuram transmitir sua experiência por meio de oficinas que utilizam metodologias teatrais para promover experiências inclusivas, assim como a criação de Conferências Cênicas, trabalhos individuais por meio dos quais atores e atrizes desvendam seus processos de criação e a relação que estabelecem com o diretor.  

Ao longo de seus cinquenta anos de história, o grupo cultural Yuyachkani recriou, por meio de suas inúmeras peças, ações de rua, oficinas e seminários, uma genealogia da história recente do Peru. A apresentação de seu acervo na 34ª Bienal de São Paulo é a primeira tentativa de expor de forma aberta e performática documentos, imagens, revistas pessoais, apostilas, vídeos e fotografias que o grupo utilizou para compor suas obras e se relacionar com o seu contexto de trabalho. Longe de seguir uma linha cronológica, este arquivo está organizado segundo os principais temas que o grupo aborda desde os seus primórdios na década de 1970 até à atualidade: o teatro como forma de vida, a criação coletiva, o corpo e a violência e a pedagogia.

  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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