Luisa Cunha

Luisa Cunha, <i>Word for Gardens</i>, 2004. Vista da instalação. Foto de Daniel Malhão
Luisa Cunha, Word for Gardens, 2004. Vista da instalação. Foto de Daniel Malhão
Vista da obra <i>1.680 metros</i> (2020), de Luisa Cunha na exposição <i>Vento</i>. Foto: Giovanna Querido / Fundação Bienal de São Paulo
Vista da obra 1.680 metros (2020), de Luisa Cunha na exposição Vento. Foto: Giovanna Querido / Fundação Bienal de São Paulo

As obras de Luisa Cunha (1949, Lisboa, Portugal) podem se apresentar como desenhos, pinturas, fotografias, vídeos, textos ou sons. Mas seja qual for a matéria, há em todas elas um interesse pela linguagem, pelas formas que podemos encontrar de dizer o que entendemos ou duvidamos do mundo, o lugar que ocupamos e como nos movemos nele. Uma fotografia do corpo plantado contra uma parede branca é como um ponto de exclamação, ou de interrogação. A fotografia de um par de tênis com os cadarços desamarrados ou da dobradiça de uma porta são reticências. Há uma simplicidade e uma clareza de frase cotidiana nessas imagens. Mas, se escutarmos de novo cada palavra de toda frase que já ouvimos muitas vezes, se nos perguntarmos de novo pelo sentido de “Vá pela sombra”, por exemplo, o que podemos entender sobre o ir e as sombras? Parece que é assim, a artista não busca grandes assuntos, mas encontra seus reflexos nos pequenos absurdos diários e nas maneiras que temos de vê-los e comunicá-los. 

A maioria de suas obras sonoras pertence ao domínio da conversa. São palavras pensadas, escritas, ditas, gravadas, repetidas para cada um de nós, para cada pessoa que escuta. Em muitos desses trabalhos a fala descreve elementos da arquitetura onde nos encontramos ao escutá-las, modificando, com poucas palavras, a percepção do contexto e da situação, no encontro entre a obra e o público. É assim em É aqui (2008), em que sua voz surge, inesperada, para pronunciar apenas as palavras do título, ou ainda em Artista à procura de si própria (2015), em que ela chama repetidamente seu próprio nome – “Luisa”. 

1.680 metros (2020) foi concebido a partir das características únicas do pavilhão Ciccillo Matarazzo, desenhado por Oscar Niemeyer e sede histórica da Bienal de São Paulo. A artista nos conta primeiro sua própria altura e o tamanho do seu passo – imediatamente nos comparamos com ela, somos mais altos ou mais baixos, andamos com passos mais largos ou estreitos, ou percebemos que nunca pensamos no tamanho do nosso andar. Na frase seguinte Luisa Cunha calcula o tempo que demoraria para percorrer o pavilhão vazio – tentamos imaginá-lo – e reflete sobre a impossibilidade de definir quanto levaria visitar uma exposição no mesmo lugar. Esta exposição, uma anterior, ou outra ainda, algum dia?



Apoio: República Portuguesa – Cultura / Direção-Geral das Artes e Fundação Calouste Gulbenkian

  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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