Carmela Gross

Carmela Gross, <i>A CARGA</i>, 1968. Foto: Marcello Nitsche. Cortesia da artista
Carmela Gross, A CARGA, 1968. Foto: Marcello Nitsche. Cortesia da artista
Carmela Gross, <i>A CARGA</i>, 1968. Foto: Marcello Nitsche. Cortesia da artista
Carmela Gross, A CARGA, 1968. Foto: Marcello Nitsche. Cortesia da artista
Carmela Gross, <i>BARRIL</i>, 1968. Foto: Marcello Nitsche. Cortesia da artista
Carmela Gross, BARRIL, 1968. Foto: Marcello Nitsche. Cortesia da artista

Carmela Gross (1946, São Paulo, Brasil) participou pela segunda vez da Bienal de São Paulo em 1969, mesmo ano em que completou sua graduação em Artes na FAAP, em um curso concebido pelo professor Flávio Motta a partir de sua proposta para um Curso de Formação de Professores de Desenho. Desde essa época, Gross tem estruturado sua obra por um entendimento complexo das ideias de desenho e projeto. Ciente da vocação do desenho como ação formadora que imprime intencionalidades na organização material do mundo, ela muitas vezes explora modos de subverter seu funcionamento, empregando técnicas e linguagens para projetar garatujas, ruídos e vultos.

Constantemente, é a observação do espaço urbano que provoca esses procedimentos de desenho e projeto. O conjunto de obras que apresentou na Bienal de 1969, por exemplo, remetia a elementos urbanos recobertos ou ocultos, usualmente desapercebidos pelos passantes. No contexto da escalada da censura e da violência de Estado promovidas pelo regime militar, uma grande lona cinza-esverdeada recobrindo uma estrutura metálica avultada (Carga) aparecia não apenas como uma escultura misteriosa, mas estava impregnada de sentidos de ameaça e perigo. Presunto e Barril, as outras obras que integravam esse conjunto, eram igualmente exercícios de anotação da paisagem urbana carregados de ambivalência entre opacidade e morbidez.

Na 34ª Bienal, além de reapresentar suas obras expostas em 1969, Carmela Gross exibirá uma obra inédita. Composta por mais de 150 monotipias, Boca do Inferno resulta, nas palavras da artista, de um "exercício cotidiano de fazer e refazer massas escuras, borrões explosivos, buracos lamacentos, fogo negro, nuvens de fuligem...". Após formar uma coleção de imagens de vulcões, Gross as processou digitalmente até formar um grupo de signos de alto contraste e contornos evidentes. Retrabalhou em seguida essas imagens, esboçando centenas de pequenos desenhos a lápis e nanquim sobre papel. Ingressou então em um ateliê de gravura, onde trabalhou com a tinta aplicada diretamente sobre chapas metálicas, criando massas escuras que seriam em seguida prensadas sobre papel ou seda, em um processo que envolve certa dose de acaso. Assim, pelo acúmulo de diferentes estágios de síntese e transferência, a artista formou um imenso painel de manchas convulsionadas, que em suas repetições e diferenças metabolizam a sua revolta ante o contexto brasileiro contemporâneo. É por esse sentido de desabafo e desaforo que Carmela Gross nomeia seu trabalho com a alcunha recebida no século 17 pelo poeta baiano Gregório de Matos. 

 



  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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