Antonio Dias

Antonio Dias, <i>A imagem: O dia como prisioneiro</i>, 1971. Foto: Ding Musa. Cortesia de Bergamin & Gomide
Antonio Dias, A imagem: O dia como prisioneiro, 1971. Foto: Ding Musa. Cortesia de Bergamin & Gomide
Vista das obras de Antonio Dias na exposição <i>Vento</i>. Foto: Levi Fanan/ Fundação Bienal de São Paulo
Vista das obras de Antonio Dias na exposição Vento. Foto: Levi Fanan/ Fundação Bienal de São Paulo

Ainda muito jovem, o paraibano Antonio Dias (1944, Campina Grande, PB) destacou-se na cena artística carioca da década de 1960. Sua pintura construiu um repertório de figurações evocativas, que assimilavam criticamente fundamentos da arte concreta e os carregavam de formas voluptuosas pintadas de vermelho, ossos e silhuetas em preto e branco, ícones de explosões e armas. Chegando a extrapolar o plano da pintura com os signos de suas narrativas abertas, Dias foi reconhecido por Hélio Oiticica como referência imprescindível para o movimento da Nova Objetividade Brasileira.

No final de 1966, tendo recebido um prêmio da Bienal de Paris, Dias enfrentou dificuldades em conseguir documentos de viagem e foi para a Europa com um passaporte duvidoso. Isso, junto ao agravamento da perseguição política promovida pelo regime militar brasileiro, motivou que sua estada em exílio se estendesse por tempo indeterminado. Tendo testemunhado os acontecimentos de maio de 1968 na França, Dias mudou-se para a Itália, igualmente conturbada por agitações políticas. Foi nesse período que os signos explícitos que caracterizavam sua produção foram reduzidos e condensados até que ele chegasse a uma obra radicalmente sintética: telas que partiam de uma massa gráfica, em muitos casos um monocromo negro, sobre os quais um fino requadro e algumas palavras pintadas em branco evocavam cenas e ideias. Essa produção consolidou a posição de Dias em um campo de crítica à própria arte como linguagem, sistema ideológico e área de investigação.

Muitas vezes percebidas como resultado da adesão de Antonio Dias ao campo da arte conceitual – caracterizado pela metalinguagem e pelo distanciamento da representação – as pinturas textuais que ele produziu a partir de 1968 podem também ser lidas como um luto estético pelo acirramento de políticas repressivas no Brasil ou, como ele as definiu em uma anotação, exercícios de uma “arte negativa para um país negativo”. Nessas obras, cada conjunto de palavras forma um enunciado aberto, associado a elementos gráficos que operam como diagramas a serem traduzidos livremente pelo observador. A oportunidade de ver muitas dessas obras juntas deixa perceber reiterações entre as ideias que elas evocam: há o viajante e a vida secreta; a praça do terror e o dia como prisioneiro; o espelho preto, a memória, a miragem e a biografia incompleta.

  1. Caroline A. Jones, Eyesight Alone: Clement Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
  2. Greenberg’s Modernism and the Bureaucratization of the Senses (Chicago: University of Chicago Press, 2005).
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